segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Os verdadeiros inimigos do planejamento pessoal

No dia 10 de março de 2017, numa chamada ao vivo, Robert Kelly falou com a BBC News, emissora de TV sediada em Londres. No momento da entrevista, o elegante professor, vestido de terno e gravata, estava no escritório de sua residência, tendo o mapa-múndi na parede de trás e alguns livros dispostos sobre a mesa. Mas o assunto, que era o impeachment da presidente sul-coreana, logo perdeu a importância quando a porta do escritório se abriu, deixando entrar os dois filhos do entrevistado, seguidos da mãe que, desesperada, tentava impedir o desastre. No episódio, que qualquer curioso pode ver no Youtube, uma coisa me chamou a atenção: ao perceber a presença dos filhos, o professor, visivelmente contrariado, não interrompeu a entrevista, mas continuou falando, enquanto tentava sutilmente afastar uma das crianças, sem, no entanto, olhar para ela. Na verdade, ele até pediu desculpas, mas não aos filhos, e sim ao entrevistador. Alguns dias depois, ao comentar o incidente, numa entrevista ao The Wall Street Journal, disse o seguinte: “Nossa primeira preocupação foi que isso estragaria completamente minha relação com a emissora e eu nunca voltaria a dar entrevistas à BBC”.

Não tenho elementos para julgar o professor. E nem é necessário fazê-lo. Mas gosto de pensar na cena como símbolo da inversão de prioridades. Para dar atenção ao canal de TV, o pai, mesmo sem notar, tentou esconder os filhos, como se fossem coisinhas inconvenientes, vergonhosas. Claro que acho o episódio engraçado e gosto de vê-lo para rir um pouco. Mas também tento utilizá-lo para pensar em minhas próprias escolhas, no critério que aplico para definir prioridades, no modo como aproveito o tempo. E também para ajudar no enorme desafio de identificar quais são os verdadeiros inimigos do planejamento pessoal. 

Antes de tudo, preciso dizer que as pessoas que você ama - ou que talvez devesse amar - não são as grandes inimigas de sua produtividade pessoal. Na verdade, um bom planejamento deve contemplá-las. E qualquer planejamento, bom ou ruim, deve ser imediatamente refeito ou até mesmo suspenso caso você note que uma delas precisa de ajuda. 

Também é bom deixar claro que as coisas de que você gosta, sejam atividades, lugares ou objetos, também não são as verdadeiras inimigas do sucesso. Ao contrário, é preciso discernir o que é realmente importante e, depois, abrir espaço na agenda para contemplar e desfrutar, sem qualquer tipo de culpa.

Em minha opinião, a lista dos verdadeiros inimigos do planejamento deveria ter aos menos três itens.

Em primeiro lugar, a falta de planejamento. Nada mais óbvio. Um plano ruim é melhor que a completa ausência de plano. Mesmo um plano ruim, ao ser elaborado, deverá ser precedido de alguma reflexão. Mas onde não há intenção de planejar, também não há motivos para pensar no que é importante.

Em segundo lugar, a agenda alheia. Quando recebemos um convite ou um pedido, muito raramente paramos para pensar em como devemos responder. O hábito de dar respostas automáticas, sobretudo para pessoas tímidas, faz com que os projetos alheios sejam sempre os mais importantes. Poucos dominam a difícil arte de dizer “não”. E assim, por falta de clareza ou coragem, temos tempo pra tudo, menos para o que se aproxima de nossos maiores interesses.

Em terceiro lugar, as estratégias de fuga. Grande parte do tempo disponível ao longo do dia, por pior que possa parecer, é tempo desperdiçado. E não estou falando de horas gastas em atividades que outras pessoas poderiam considerar inúteis, mas que, na verdade, tocam pontos importantes da personalidade, como, por exemplo, escutar a banda preferida, sair para tomar café com um colega ou jogar futebol com os amigos. Acontece o verdadeiro desperdício de tempo quando, sem perceber, utilizamos estratégias para fugir do que é importante, realizando tarefas que fazem o dia parecer cheio, mas que não levam ninguém a lugar algum, como, por exemplo, saltar de um a outro canal de notícia, em busca de uma novidade que nunca vem; alternar entre duas ou três redes sociais, na esperança de encontrar algo que valha a pena; ou assistir intermináveis episódios de temporadas intermináveis de séries igualmente intermináveis. Para aliviar a angústia de não fazer o que é preciso, enchemos o tempo do que é inútil.

O uso do tempo, portanto, parece exigir que se possa separar coisas que realmente atrapalham de outras que, muito embora não pareçam típicas de pessoas altamente produtivas, são essenciais e não deveriam ser evitadas. 

Vou terminar com outra historinha, que também me ajuda a pensar no assunto.

No dia 1º de setembro de 2004, meu relógio de pulso parou de funcionar. Sem aviso prévio, aquele aparelhinho simpático, que eu pendurava no braço todos os dias, simplesmente parou. Eu sei o dia exato não porque tenha facilidade para decorar datas, mas porque nele, por volta de oito horas da manhã, nasceu o Davi, meu primeiro filho. Desde então, gosto de imaginar que o relógio parou, precisamente naquele dia, para me dizer que nada seria como antes. O próprio tempo que, na verdade, nunca tinha sido rigorosamente meu, agora é que me pertenceria ainda menos. 

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